14 de setembro de 2014

Sinestesia



O cheiro doce é quase macio, entra nos pulmões como se acarinhasse; como as mãos que deslizam pelos fios de cabelo.Já a pele, salgada. Da brisa do mar, do suor, sei lá... Contrasta com a doçura, mas acompanha a maciez.
Maciez também nos olhos que, embora difíceis de decifrar, guardam claramente o carinho do sorriso; sorriso sereno, bonito, que emana luz e um calor próprio - talvez por ser emoldurado pelos lábios que já foram provados... Quentes.
E o calor dura, segue, insiste. Na pele, de fora pra dentro; no peito, de dentro pra fora.
Do lado de fora pássaros cantam em suas gaiolas um canto de socorro querendo sair. Do lado de dentro pássaros dançam em sua mente ao som de um canto que encanta, querendo entrar.
E de olhos fechados não tem sal, calor, nem som. O cheiro ainda é doce e macio, entra nos pulmões como se acarinhasse e rouba sorrisos como se fizesse cócegas.

10 de setembro de 2014

Se tiver a Vida nos braços, abrace forte.


  O meu corpo, antes mole, agora se contraía o máximo que era possível e eu sentia, além de muito frio, todos meus músculos doerem. Tremendo, meu calor se esvaía e meus pés quase saíam do chão com tanto movimento. Não consegui pedir socorro, mas ele veio. Ela veio. Mãe sempre sabe. 
  Minha boca, roxa. O banheiro todo embaçado de vapor. E a pele estava pálida e arrepiada como se o chuveiro soltasse granizo. Sentia dor, mas não podia falar. Após a tentativa de me aquecer por fora, a morte continuava a vir de dentro, já tinha se alojado em mim. 
  Uma vez no quarto, tentei fazer a vida me invadir. Afinal, ela estava mesmo bem ali sob meus olhos, a minha Vida. A Vida que eu botei no mundo, minha paz na vida. Lutei, mesmo sem força. Com a morte dentro e a vida fora... Tentei lutar. 
  Quando tudo apagou, já não tinha mais dor. O frio existia, mas o medo já era quase amigável: "Como vai a Vida?" - vai bem, obrigada, dedico a ela tudo o que tenho. E morrer, agora, não seria perder a vida, mas me doar a ela, e por ela, até a morte é aceita. 
  Aos poucos abri os olhos e pisquei de novo e quando vi ainda era vida. Pisquei de novo e era noite. Som de choro por todo lado, mas a Vida continuava em paz. Uma voz familiar ecoava "...morrendo..!!!" e outra, mais familiar ainda, chorava desesperada até soluçar. Mãe sempre sabe. 
  Respirei fundo e, já sem dor, sorri. "Vida" - eu disse, baixinho, e pude ver seu sorriso de volta pra mim. Pisquei de novo e quando abri os olhos era dia. Um novo choro, parecia música. E minhas lágrimas aqueciam o que antes fora hipotermia. 
  Depois de horas de morte fria de dentro pra fora, com um abraço quente comecei a sentir o alívio de fora pra dentro. Mais uma vez em meus braços: Vida. E eu, viva.