10 de setembro de 2014

Se tiver a Vida nos braços, abrace forte.


  O meu corpo, antes mole, agora se contraía o máximo que era possível e eu sentia, além de muito frio, todos meus músculos doerem. Tremendo, meu calor se esvaía e meus pés quase saíam do chão com tanto movimento. Não consegui pedir socorro, mas ele veio. Ela veio. Mãe sempre sabe. 
  Minha boca, roxa. O banheiro todo embaçado de vapor. E a pele estava pálida e arrepiada como se o chuveiro soltasse granizo. Sentia dor, mas não podia falar. Após a tentativa de me aquecer por fora, a morte continuava a vir de dentro, já tinha se alojado em mim. 
  Uma vez no quarto, tentei fazer a vida me invadir. Afinal, ela estava mesmo bem ali sob meus olhos, a minha Vida. A Vida que eu botei no mundo, minha paz na vida. Lutei, mesmo sem força. Com a morte dentro e a vida fora... Tentei lutar. 
  Quando tudo apagou, já não tinha mais dor. O frio existia, mas o medo já era quase amigável: "Como vai a Vida?" - vai bem, obrigada, dedico a ela tudo o que tenho. E morrer, agora, não seria perder a vida, mas me doar a ela, e por ela, até a morte é aceita. 
  Aos poucos abri os olhos e pisquei de novo e quando vi ainda era vida. Pisquei de novo e era noite. Som de choro por todo lado, mas a Vida continuava em paz. Uma voz familiar ecoava "...morrendo..!!!" e outra, mais familiar ainda, chorava desesperada até soluçar. Mãe sempre sabe. 
  Respirei fundo e, já sem dor, sorri. "Vida" - eu disse, baixinho, e pude ver seu sorriso de volta pra mim. Pisquei de novo e quando abri os olhos era dia. Um novo choro, parecia música. E minhas lágrimas aqueciam o que antes fora hipotermia. 
  Depois de horas de morte fria de dentro pra fora, com um abraço quente comecei a sentir o alívio de fora pra dentro. Mais uma vez em meus braços: Vida. E eu, viva. 
 

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