
Desculpa o mau jeito, desculpa a bagunça... Mas a roupa no chão foi você que jogou. Foi só chegar perto e me despiu com os olhos, e me vi nua diante de você.
Não... Não é como se fosse um desejo fatal, daquele que arde só de se ver, e então na sua cabeça eu estava me insinuando... É que você me faz baixar a guarda e me desarma, você despe a alma. Fico sem a proteção das minhas armaduras.
Você me olha e me enxerga. Você, ao me ver, me lê. Não precisou de muito, não, foi mais fácil do que pude notar... Não tive nem tempo de tentar me proteger.
Mas aí você cuida, né. Me bota no colo, me encosta no teu peito, me abraça com jeito pra me dar teu calor e aquece meu coração.
Desculpa chegar assim do nada, sem nem bater na porta ou tocar a campainha. Eu não queria te invadir, mas é que você entrou em mim e fez morada. Tem algo de você em mim que me faz fazer parte de tu... Porque diz um amigo meu que amor não é posse, é pertencer. De certa forma, te pertenço.
E não é como se fosse sua, de fato, não sou, nem sei se jamais seria. Mas tem parte de você em mim, e eu já to morando em você. Ninguém mandou me abrigar, sabe? Sou espaçosa, você já notou.
E bagunceira, também. Uma tragédia.
Mas é que você me fez sentir bem. Confortável. É um calor agradável que exala em você.
Às vezes quente demais que até queima, mas é que pele com pele gera atrito, mesmo... Mas quente mesmo é o coração. E mais quentes que os beijos são os abraços, e foi nesses abraços que resolvi me aninhar.
O problema do ninho é que passarinho voa, não é por maldade. Tem que bater as asas e cantar a liberdade. Só não esquece que o ninho é o refúgio que abriga, então é teu calor que eu volto a procurar.
Porque você consegue fazer meu coração borbulhar. E transbordar.
Uma, duas, três vezes... E continuo contando.
Construí o ninho em você e fiz do teu colo um porto-seguro, deixei-me te amar e chamei de lar.
Outros pássaros vão encontrar o encanto do refúgio que tu é, e em meus voos sei que me perderei.
Mas o lar é onde a gente ta bem, nada muda o que a gente tem.
Não posso deixar de te agradecer, embora saiba que digo muito isso... Obrigada pela nudez e por compensa-la com abrigo quente.
Não vai embora sem aviso - e, de preferência, nunca avise pra não ter que ir. E se for, vai na paz e cuida com carinho de tudo o que te dei, afinal, meu corpo qualquer um pode despir, mas a alma foi proeza sua. Só não quero perder o abrigo e ficar sem armadura.